MESTRES DO MUNDO - Roda da cultura agita Limoeiro

Tambor de crioula do Maranhão trouxe
ritmos  dançantes para a programação
do Mestres do Mundo
FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR
Vários eixos são abordados durante os quatro dias de realização de evento, tendo como base a cultura popular
Limoeiro do Norte. O palco está armado. Ou poleiro, no melhor sentido que dá um mestre da cultura. E a principal roda inventada pelo homem, a da cultura, gira em vários eixos no Encontro Mestres do Mundo, em Limoeiro do Norte.

Dia e noite a cidade percorre uma extensa programação que vai de discutir a igualdade racial, o patrimônio cultural, à feitura desde o começo de objetos artesanais em oficinas dessas "mãos que fazem história". Mestres da cultura popular de todas as regiões cearenses e dos Estados de Alagoas, Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro.

Com o canto aboiador da mestre Dina Vaqueira teve início a sexta edição do Encontro. A primeira novidade foi o Tambor de Crioula Catarina Mina, do Maranhão. Na mesma praça, os mesmos mestres da cultura se encontram. Uns mais, outros menos. Quem não morreu, veio.

Oficinas
Até quem tem idade avançada, corpo mais frágil. "Nam, eu gosto de estar aqui", retruca mestre Margarida Guerreiro, dona do reisado popular mais popular de Juazeiro do Norte. Desde 1950 comanda o reisado feminino revelador de toda a negritude que iluminou os terreiros culturais do Ceará. E mulher quando não dança é quem organiza a brincadeira.

E assim se concebe o mestre: domina bem o que faz. E pelas manhãs eles mostram com se faz nas oficinas de corpo (dança), mãos (artesanato), sons (instrumentos e música), oralidade (poesia, trovas e ladainhas) e sagrado (ervas medicinais, orações e costumes). Durante as tardes acontecem palestras e seminários. Ontem (sexta-feira) duas mesas debatedoras discutiram as africanidades cearenses pela presença das comunidades quilombolas no Ceará e a influência na religiosidade e nas festas populares.

Hoje será discutido o papel da cultura como vetor de promoção da igualdade racial. Também se falará da pedagogia griô.Griô é um quase-sinônimo de Mestre da Cultura. O termo da cultura africana significa "aquele que transmite". Mas não basta saber para transmitir, como uma consulta em livros.

É preciso ter vivenciado e também aprendido com a ancestralidade. E toda a negritude brasileira esteve evidente no Tambor de Crioula Catarina Mina, do Maranhão. A manifestação é uma herança dos escravos (no Maranhão, principalmente no início do século XVII), em que os brincantes realizam uma verdadeira festa ao som de tambores cujo couro foi queimado lá mesmo, minutos antes da apresentação. Assim garantiu uma melhor sonoridade.

Ritual
Não é apenas uma dança, é também um ritual de transe, aquecido com valores do sincretismo religioso, com importantes traços das giras de umbanda. Além de ser um instrumento de resistência e luta dessas comunidades. A arena do Palco Mestre está montada na Praça José Osterne, no largo da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

O Encontro Mestres do Mundo enseja os festejos da padroeira. É quando acaba a missa das 19h que muitos fieis ocupam lugar no "puleiro da terreirada" para acompanhar as apresentações. Moleque como poucos, mestre José Pio, apresentando o "Boi Ceará", arrancou risos e aplausos da plateia. Interação, por sinal, é palavra de ordem no Encontro, que é uma referência da cultura regional. "Zé Pio" é guardião da memória de vários grupos de bumba-meu-boi de Fortaleza.

MAIS INFORMAÇÕES

Encontro Mestres do Mundo, até amanhã em Limoeiro do Norte, Vale do Jaguaribe
Telefone : (88) 3423.1165

 
Repórter:
MELQUÍADES JÚNIOR
Fonte: Díario doNordeste-Regional