Cultura popular - Canudos resiste nos poemas em cordel do poeta Babi Guedes

Foto meramente ilustrativa
A segunda edição do livro "Canudos, a Saga do Povo Nordestino", tem desenhos de bico de pena do ilustrador Valdério Costa
Fortaleza. "Canudos, a Saga do Povo Nordestino" é um libelo da luta do povo contra a opressão e motivo de maior orgulho da região pelo espírito da resistência e a força da mística. Essa é a leitura que desprende do livro escrito pelo poeta, cordelista e compositor Babi Guedes, relançado no mês passado pela Ensinamento Editora, dentro do projeto Cesta Básica da Cultura e do Abastecimento (CBCC), com apoio da Lei Rouanet.

A publicação gira sobre os conflitos entre o Exército brasileiro e os seguidores de Antônio Conselheiro, com ênfase ao período compreendido entre 1896 e 1897. A campanha somou quatro ofensivas militares, sendo estes literalmente humilhados até a quarta e última investida vitoriosa sobre o povoado.

Babi Guedes é o nome artístico de Potengy Guedes Filho, cearense, 58 anos, e residente na aldeia Tapeba Jandaiguaba. Além de escritor e cordelista, é cantor, compositor mamulengueiro e artesão.

Sensibilidade
Sensível à arte e ávido pela cultura popular, foi instigado a escrever sobre Canudos e a saga de Antônio Conselheiro, tendo por principal fonte de inspiração o Livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Ficou entusiasmado com a fibra e a mística da história ocorrida nos sertões baianos, tendo como protagonista principal um cearense, nascido em Quixeramobim.

Fortes como os trovões anunciando as primeiras chuvas no sertão, os versos têm som, cheiro e sabor da terra. O tema, contudo, não poderia ficar restrito para um grupo de pessoas. Daí que Babi teve a ideia de recontar Canudos, com a poética do cordel, entendendo que assim obteria mais fácil compreensão. Seu intuito foi mais além. Acabou criando mais de 1.200 sextetos, com métrica e rima, que permitem que sejam cantados numa cadencia melódica.

O poeta explica que a escolha pela rima não é porque é fácil ou difícil, mas porque se faz necessária. Do mesmo modo, é cuidadoso com a distribuição do enredo, que conta desde o nascimento de Antônio Mendes Maciel, nome de batismo de Antônio Conselheiro, sua peregrinação pelas cidades do Nordeste, a aridez do solo, a política que beneficiava o opressor, a República que negava os valores da Igreja Católica e, numa crescente comoção, a resistência dos penitentes reunidos em Canudos, ou Belo Monte, que naquela época chegou a ser a segunda cidade mais importante da Bahia, perdendo apenas para a Capital Salvador.

As estrofes, intercaladas por desenhos bico de pena, do ilustrador Valdério Costa, contam a história do nascimento do fundador da comunidade, que tentava reviver um cristianismo primitivo, radical.

Em seguida, o leitor é remetido a inteirar-se sobre a predestinação ao sofrimento e a perseguição. O ponto catalizador foi sua rejeição à República, especialmente pela ruptura com a Igreja Católica e os excessos cometidos pelas forças repressoras na cobrança de impostos. Isso fazia com que se tomasse terras e propriedades, de um povo já tão destituído de bens.

Enquanto isso, difundia-se naquele meio a vinda de dom Sebastião, espécie de rei louco português, que para os lusitanos iriam recuperar a autonomia nacional, perdida para a Espanha, enquanto que para os sertanejos brasileiros significaria o restabelecimento da Monarquia. Uma promessa que era alimentada com superstições e pelo delírio de uma terra agonizante.

Isso atraiu seguidores e uma fúria de crueldade que resultou no massacre de mais de 20 mil sertanejos e o incêndio de todas as casas do arraial. Mas tudo isso aconteceu não sem dificuldades, conforme conta o livro. O povo de Canudos numa região inóspita, de difícil acesso e que tinha a natureza com maior aliada para inibir a investida do invasor. O lugar, também conhecido como o Raso da Catarina, era o mesmo que servia de esconderijo para Lampião e seu bando, quando não encontravam mais nenhum outro refúgio.

Ao todo, foram quatro expedições contra o arraial, que tinha como principal afronta o fato de crescer em adeptos e na ruptura com instituições governamentais. O livro é encontrado na cesta básica, oferecido pelo governo federal, que além de alimentos, inclui revistas, CDs e outros produtos culturais. Este é o segundo livro de Babi. O primeiro foi da Borduna à Cibernética, escrito no início desta década. Na obra de Babi, conta-se sobre os sermões, firmados no Evangelho e na comunhão; a promessa da redenção, alcançada com orações e penitência. Mas eis que Canudos sucumbiu.
Mais informações:
Babi Guedes, Aldeia Tapeba Jandaiguaba - Caucaia
Região Metropolitana de Fortaleza
Telefones: (85) 9700.0184 e
(85) 8595.9025

MARCUS PEIXOTOREPÓRTER
Fonte: Diário do Nordeste-Regional